Dez mil linhas geradas
Chega uma hora em que tudo começa a derreter
Estava-me eu na academia descansando após uma extensão de panturrilha quando apareceu uma notificação de e-mail dizendo “De Ladinho com Ticinho: A palavra après-midi”.
Congelei.
Fiquei confuso por alguns segundos, com cara de Nazaré, até me dar conta do que aconteceu. Eu sabia que essa coisa de ficar brincando com o alter ego um dia ia dar ruim.
Semanas antes, eu tava de férias em Montreal com dois objetivos: ver o show da Odezenne, minha banda francesa favorita, e fazer meu teste de proficiência em francês. Nenhum dos dois aconteceu.
O show foi adiado pro ano que vem. E o teste deixou de ser necessário porque minha esposa tirou uma nota super alta no inglês, o que já bastava pra nossa aplicação pra residência permanente (que vem aí!). E assim, de repente, meu hiperfoco dos últimos tempos perdeu a importância.
Eu poderia ter feito o teste mesmo assim, só pra saber meu nível, mas entre isso e um reembolso de 317 dólares, preferi o dinheiro. No fim, estudei por um ano pra pedir cafés e croissants em francês.
Por mim tá ótimo.
Com tempo sobrando, estiquei a viagem até Toronto. Fui sem computador, justamente pra não cair no loop atual de tentar ser produtivo, abrir o Claude Code, gerar dez mil linhas de código pra um projeto pessoal que, assim como meu trabalho oficial, também envolve gerar dez mil linhas por dia. Nenhuma delas saída das minhas mãos.
Passei os dias batendo perna, tirando foto, descansando, pensando na vida. Até escrevi um post do Ticinho e deixei agendado pro mês seguinte. E foi justamente num daqueles dias livres de responsabilidades, olhando pros montinhos de neve nas ruas de Toronto, que tive uma epifania. Algo parecido com o que me aconteceu um tempão atrás.
O ano era 2011. Eu morava em São José dos Campos, tinha acabado de terminar um curso técnico em mecatrônica e começado engenharia. Fazia estágio na Embraer e, todo dia durante o trajeto do fretado, pensava: “Será que é isso mesmo?”
Era estável. Fazia sentido. Mas não sentia que era pra mim.
No tempo livre, comecei a fuçar outras coisas e fui parar num software chamado Unity 3, usado pra fazer jogos. Vi uns tutoriais no YouTube, aprendi umas coisas e me animei.
Lembro até hoje da cena: eu no meu quarto, num notebook Acer, ouvindo Nerdcast, montando uma floresta com neve e andando por ela em primeira pessoa (porque ainda não era capaz de modelar um personagem). Algo que nem era tão difícil, mas que me fez sentir capaz de muita coisa, e a partir dali um mundo de possibilidades se abriu na minha cabeça.
Descobri então que existiam cursos superiores de jogos digitais em São Paulo, que não só usavam Unity como juntava 3D, arte, som, narrativa, código, etc. E fez todo sentido. Me matriculei no mais barato que dava pra pagar, e meses depois me mudei pra capital.
Logo no começo do curso, um professor me indicou pra um estágio como desenvolvedor, e ali começou minha carreira no desenvolvimento, que dura até hoje. E foi também onde conheci minha esposa. Doido como uma floresta de neve mal feita quinze anos atrás desencadeou tanta coisa.
Voltando pra Toronto, dessa vez eu olhava pra neve de verdade. E suja. Quem nunca morou em lugar que neva geralmente não se dá conta de que chega uma hora em que tudo começa a derreter. E vai virando meleca. E vai descongelando lixos que estavam ali há muito tempo. E vai recebendo xixi de cachorro. Uma imundície. Mas tudo bem, eu já morei na Rua Augusta e adorava.
Divaguei.
Me vi ali, olhando pra neve suja, de férias, livre, sem computador, sem entregas, mas com a cabeça ainda em código, projeto pessoal, features, bugs, banco de dados. E me veio de novo a pergunta: “Será que é isso mesmo?”
Minha epifania foi: e se nessa nova era de inteligência artificial, em vez de mergulhar e multiplicar o que eu já faço todos os dias como profissão, eu aproveitasse pra ir em direção ao que eu sempre quis mas nunca me dei espaço pra fazer?
Se eu tirasse o dinheiro da equação, o que eu sempre quis foi criar coisas. Não coisas que resolvem um problema específico. Coisas que transmitem algo. Coisas que a gente faz porque só sobreviver não basta. E num mundo em que cada vez mais a IA vai dar conta do lado puramente funcional, talvez seja a chance de participar mais do lado oposto disso.
E talvez o nome disso seja arte. Uma palavra que eu evito porque me ver um dia como 1% artista ainda parece pretensão demais.
Mergulhei no assunto, explorei possibilidades sem saber bem pra onde ir, como na época da faculdade, com aquela vontade de juntar um monte de interesses diferentes, mas dessa vez com mais bagagem.
E se, assim como o Norvana, eu unisse todas as minhas tribos? Se eu conectasse os Jouões do passado, presente e futuro? Software com hardware. Desenvolvimento com design. Fotografia com música. Pixels com matemática. Código com arte. Neve feia e digital, com neve feia e real.
E então eu descobri uma área que eu nunca tinha ouvido falar, mas que parece resumir tudo em duas palavras: Creative Technologist.
E mais uma vez, um mundo de possibilidades se abriu na minha cabeça.
Mais detalhes do que exatamente eu quero fazer ficam pros próximos capítulos. Só o que tenho a dizer por enquanto é que esse texto tá mais de um mês atrasado porque arrumei um novo hiperfoco com toda essa história.
Quando recebi o e-mail do Ticinho na academia eu quis me matar, porque percebi que tinha deixado o post agendado semanas antes e esquecido de fazer uma revisão final. Nem abri pra não me constranger lendo.
Mas quando comecei a escrever esse aqui, percebi que aquele post foi uma feature, não um bug. O fato de ter saído inacabado é justamente o ponto. Saiu o que tinha pra sair naquele momento, com o que me veio naquele dia, ainda sem a preocupação com o que iam achar dele.
Bom ou ruim, foi algo que surgiu na minha cabeça e foi escrito pelas minhas próprias mões. E é só o que sai das nossas mãos que carrega peso de verdade: memórias, dúvidas, vergonhas, vulnerabilidades. Cada linha mal terminada nossa sempre vai valer muito mais que dez mil linhas geradas do lado de lá. E é mais pra essa direção que eu pretendo caminhar.
Perspectivas Totais
Citações, anotações e recomendações que tenho salvas e que podem ter tudo ou nada a ver com o tema de hoje:
“All my favorite artists are absolutely not role models nor would I want them to be, but maybe that’s just me. I want hedonism, danger and a sense of anti establishment to come along with my artists because when I was younger I wanted to escape through them. I don’t care if they tell the truth or lie or play a character or adopt a persona or fabricate entire scenarios and worlds. To me that’s the point, that’s the drama, that’s the fun, that’s the FANTASY.”
Trecho do post da minha colega de substack charli xcx sobre ser um pop star
Campanha que a Polaroid lançou ano passado misturando o tema IA com fotos analógicas nostálgicas. Meio clichê, mas desperta a sensação de que aqueles momentos especiais que valiam uma foto antigamente serão cada vez mais raros. Mesmo que a gente tire muito mais fotos.
“The most personal is the most creative.’” Martin Scorsese, his idol, said it first. And Bong Joon-ho used it to write Parasite. And now I’m using it to write this. And you can use it, too, if you’re stuck, if you’re empty, if you need to write but words escape you, be personal. Because the most personal is the most creative”
Eddie Shleyner no livro Very Good Copy
Por hoje é só,
João Inacabado Paulo





